Nutrição infantil desvendada

Os dados preocupam: 80% das crianças brasileiras consomem mais açúcar do que o recomendado. Para piorar, 89% dos pequenos extrapolam a quantidade de gordura estabelecida pelos órgãos de saúde e 82% não alcançam o valor mínimo de ingestão de fibras. Os dados, que fazem parte da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aumentam a preocupação de pais e familiares sobre a melhor maneira de oferecer aos seus filhos alimentos saudáveis. O caminho, sem dúvida, é árduo: bolachas recheadas e salgadinhos parecem sempre chamar mais a atenção infantil do que uma cenoura ou uma maçã.

Para socorrer pais e mães aflitos, o pediatra Mauro Fisberg, professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, lança o livro Guia Descomplicado da Alimentação Infantil (Editora Abril), com as revistas SAÚDE e CLAUDIA. A obra também conta com 40 receitas da nutricionista Priscila Maximino, da Nutrociência Assessoria em Nutrologia, em São Paulo, que tornam as refeições da garotada mais saudáveis e divertidas – inclusive, você confere uma receita inédita na página 64. Nesta entrevista, Fisberg faz algumas sugestões sobre como transformar a hora de comer em momentos de alegria, sem grandes complicações.

alimentos

SAÚDE – Qual é a importância de começar uma alimentação saudável ainda na infância?

Mauro Fisberg – Os hábitos são criados muito precocemente. Acredite: a maioria deles surge durante o primeiro ano de vida. É nessa fase que os pequenos começam a experimentar comidas diferentes do leite. Os costumes alimentares aparecem quando os adultos oferecem algum ingrediente repetidas vezes, combinando volumes diferentes e consistências diversas. Defendo que a alimentação deve ser idêntica à dos pais. Isso, claro, se eles tiverem uma dieta equilibrada. O bom exemplo faz com que as preferências se estabeleçam, se consolidem e possibilitem uma maior variedade na alimentação ao longo de toda a vida.

Então a preferência por certos alimentos e a recusa a outros vêm de berço?

Preferir certos sabores é normal e isso pode ser influenciado até pela genética. Mas nem sempre o gosto é uma característica inata da criança. Seu paladar é influenciado pelos hábitos da família e, também, por experiências passadas, boas ou ruins, com determinado alimento. O filho deixar de comer uma coisa ou outra não deve causar preocupação nos pais. A seletividade exagerada, sim, é outra história. Ou seja, não tem problema quando não come mamão mas aceita outras frutas. O problema é quando ele bloqueia todo um grupo de alimentos – a criança que fecha a boca para qualquer verdura, por exemplo.

Quais são os erros mais comuns que os pais cometem na hora de educar os filhos em termos de alimentação?

O primeiro é ser um modelo ruim. A dieta da criança segue a dos pais e de seus familiares. Em segundo lugar, é o fato de os adultos não estabelecerem limites, deixando o pequeno consumir o que quiser, ou serem muito restritivos e rígidos. Nenhum dos excessos é adequado. O terceiro equívoco é não ter ideia do que oferecer aos filhos. Ou seja, preparar um alimento que não está de acordo com a faixa etária, numa consistência inadequada, ou uma combinação que não é apropriada para a criança.

No livro, o senhor trabalha com o conceito de funky food. Por que os familiares devem incentivar o lúdico nas refeições?

O conceito de funky food foi criado nos Estados Unidos e utiliza técnicas divertidas e agradáveis para apresentar e modificar a alimentação. São formas lúdicas de preparar a comida. O prato é montado com rostinhos, figuras e desenhos, de forma que seja atrativo. O objetivo não é mascarar um produto, e sim encontrar um jeito divertido de apresentar uma comida. Dessa maneira, é possível colocar ingredientes que o menino ou a menina não ingerem habitualmente, como verduras, legumes, frutas e até mesmo algum tipo de carne. É muito importante apontar para a criança quais itens foram utilizados, estimulando-a a experimentar novos sabores por meio da diversão.

Qual é a importância dessa obra para toda a família?

Como o próprio título já diz, nosso objetivo é tentar desmitificar e descomplicar a alimentação infantil. A refeição deve ser gostosa, bem apresentada, rápida e prática. A reunião à mesa precisa ser transformada em um evento que mescla alegria e união. A comida deve ser, ao mesmo tempo, fonte de nutrientes e de prazer. Acredito que precisamos reeducar as famílias nesse sentido. O livro procura fazer com que a criança coma melhor sem complicar e, principalmente, sem despertar cobranças e culpa.

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